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sexta-feira, 9 de outubro de 2015

As dores da mente

Da série... Mais um conto que eu conto

Qualquer pessoa sabe que não existe pior doença no mundo que uma mente insana. Isto mesmo, uma mente que não funciona bem pode colocar tudo a perder, mas quando eu falo “tudo” não estou sendo exagerada, estou sendo realista, o máximo que posso. Perder o controle sobre a própria mente pode lhe custar mais que a paz, perder o equilíbrio mental é como se trancar em um lugar, fechar todas as saídas e o encher de agua até sentir lentamente o desespero daquilo que se causou, e não conseguir reverter, esta pode ser uma das mil definições possíveis para aqueles que se perdem de si mesmo. Talvez isto seja algo muito comum, mas pouco contado, e eu só sei de tudo com riqueza de detalhes por que estive lá o tempo todo.

É difícil ser fiel a personalidade de Ana Lucia, mas tentarei ser o mais próximo que conseguir. Ana, sempre foi uma mulher muito agradável, aquele tipo de mulher que qualquer pessoa falaria bem, mas não apenas por sua educação, ou doçura em sua voz, nem mesmo por ter sido “criada” para ser uma boa esposa e mãe, o diferencial dessa mulher é que ela se sentia bem em ser quem era. Sentia-se naturalmente bela em seus poucos 1,60 de altura, cabelos curtos e pele bem cuidada pela genética, no entanto o seu físico não era o que mais importava, mas ser considerada uma mulher “prendada”, isto era algo que a deixava cheia de orgulho, ou pelo menos pensava isso.

Enquanto estava a cuidar do seu jardim, Ana Lucia ouviu o chamado de sua vizinha. Fátima não era muito mais jovem que Ana Lucia, mas também não era de sua idade, era uma mulher que se arrumava muito, dificilmente alguém a veria sem estar com o rosto coberto de maquiagem e vestindo roupas vistosas e salto. Naquela tarde, Fátima estava péssima, ela era o que podemos chamar de hipócrita ou fingida, a sua boa aparência era tão externa, que se pudesse ser olhada por dentro nos faria chorar por tanta amargura que carregava em seu coração.

As duas não se falavam muito, mas naquela tarde decidiram saber por que isso acontecia. Falaram-se um pouco sobre assuntos diversos, e sobre o que estavam fazendo da vida. Fátima a todo o momento olhava as expressões e a roupa de Ana Lucia, aquilo que conhecemos como “fazer uma geral com o olhar”, com um sorriso de ar simpático, Fátima olhou para a vizinha e sem fazer nenhum rodeio perguntou:

- Qual é a sua finalidade no mundo?

- Como assim? – Respondeu Ana Lucia completamente perdida com a pergunta. – Eu não entendi o que você quis dizer.

- É simples. – Respondeu a vizinha em tom debochado enquanto admirava as unhas. – Pra que você serve? Lavar as roupa dos seus filhos, que nem lembram que você existe, e passam dias fora de casa, sem mesmo te dar satisfação. – A vizinha pigarreou. Será que você nunca enxergou como as pessoas te usam! Ninguém se importa com você. - Ela gargalhou. - Querem as roupas lavadas e a comida pronta!

- Eu não entendo por que esta dizendo isso! – Respondeu Ana Lucia indignada. – Eu amo a minha família, e cuido de todos com muito zelo e amor por que tenho vontade!

- Não acredito em você. Você faz isso por que não tem outra opção. – Fátima sorriu tentando parecer serena. – Então me responda o que você faz por você? Quem é Ana Lucia no mundo? Diante do mundo e para o mundo? Você não é nada!

- Isso não é verdade Fátima! – Disse Ana Lucia em tom desesperado. – Por que me diz isto?!  

- Mas eu não estou dizendo isso para te chatear. – Disse Fátima com tanta certeza que até eu acreditei, e garanto que você acreditaria se estivesse lá. – Eu quero apenas que você se enxergue como alguém importante, e não uma maquina de limpar sujeiras, e limpar casa, e lavar, e cuidar, e muito mais coisas, que eu não sei e nem quero saber, por que nunca quis uma vida dessas pra mim!
- Mas eu não penso isso. Os meus filhos não são assim, somos uma família, e todos nos ajudamos. – Respondeu Ana como se tentasse se convencer do que dizia.

- Faz-me rir! – Gargalhou a mulher novamente. – Amiga... Você não precisa mentir, moramos muro a muro à muitos anos, conhecemos mais uma da outra do que queremos.

Isso era verdade, neste momento Ana Lucia lembrou-se de todas as coisas que ouvia da vizinha mesmo sem querer, assim como devia acontecer com ela, realmente se conheciam mesmo sem se falar.   

- Eu não entendo por que esta dizendo isso de mim, eu não me incomodo em ajudar a minha família.

- Você não ajuda minha querida, você é uma escrava, uma empregada... – Ela riu debochada. – Se você não fizesse nada em casa, eles arrumariam uma empregada, e você seria o que?

Ana Lucia ficou muda, não conseguia encontrar respostas para aquilo, na verdade jamais havia se perguntado algo do tipo.

- Sem contar o seu marido né! – Fátima olhou a vizinha e deixou seu rosto indiferente dizer o que queria.

- O que tem o meu marido? – Perguntou Ana Lucia exaltada.

- Não tem nada... – Ela riu. – Defina você mesmo. Eu já disse que você não tem vida, você vive a vida das outras pessoas, eu não falo por mal, de verdade. – Ela baixou os olhos. – Eu não sei se a minha vida esta certa, mas precisamos saber quem somos!  

- E você sabe? – Perguntou Ana.

- Não ao certo, mas estou muito mais perto que você.

- Eu não acho isso. Eu faço o que quero, eu tenho liberdade de viver o que eu quero, mas quero viver isso, e gosto disso.

- Eu duvido! – Disse Fátima com certa arrogância. – Não quero te chatear, já que você escolheu isso eu não irei dizer mais nada.
Ana Lucia já estava irritada, inquieta e impaciente, aproveitou a deixa da vizinha no mesmo instante e já emendou:

- Esta bem, eu tenho que entrar para preparar o jantar. Foi um prazer conversar com você.

- Boa noite. Disse Fátima.

Ana Lucia entrou as pressas, assim que olhou o relógio da cozinha viu que havia passado tempo demais falando com a vizinha. Começou a mexer nas panelas, e viu que havia se esquecido de descongelar a carne para o jantar, aquilo a deixou irritada. Passou em frente ao espelho do corredor e notou que o cabelo estava muito oleoso, também notou que não tinha corte, passou a mão pelo rosto e viu a pele cheia de manchas. Bufou insatisfeita e resolveu tomar um banho, decidiu que depois que se sentisse melhor prepararia o jantar.

Ana Lucia não se lembrava da ultima vez que havia tomado um banho tão demorado, tocou a sua própria pele de forma diferente, deslizava as mãos pelo seu corpo como um lugar desconhecido, a correria do dia a dia não lhe permitia muitos mimos, e demorar muito ao tomar banho era um deles. Enquanto sentia a água quente cair por seus ombros, Ana Lucia ouviu uma voz grave: - Quem é você!?  Apesar de ter ouvido a pergunta daquela voz estranha, Ana ignorou, devia ter se lembrado do que disse Fátima poucas horas antes, e continuou a tomar o seu banho, mas logo se lembrou da hora, logo os filhos chegariam da faculdade e do trabalho, e ela não tinha feito nada. Saiu imediatamente do banho e depois que se trocou foi logo para a cozinha. Assim que tocou na panela, a voz grave repetiu: - Quem é você!?

Ana olhou para os lados, só podia estar ficando louca. Em instantes a filha chegou, e logo em seguida o filho. Ambos eram adultos, trabalhavam e estudavam, mas nada faziam em casa para ajudar, talvez por falta de tempo, ou disposição, na verdade, além de qualquer coisa não tinham o costume de precisar fazer nada, além de jantar e tirar o prato da mesa. Ana Lucia era mesmo alguém muito eficiente, tudo estava sempre finalizado e impecável, mas naquela noite nada estava pronto. A filha foi a primeira que reclamou, irritada ao ver que a mãe não tinha iniciado o jantar, disse que estava cansada e com muita fome, e a única coisa que desejava era jantar e dormir, mas a mãe não foi capaz de lhe proporcionar isso.

O filho não foi diferente, mal cumprimentou a mãe quando notou que a irmã reclamava e fez o mesmo, se juntou a irmã para dizer como aquela situação era inaceitável. Ana Lucia se enfureceu, mas não respondeu nada aos filhos, ela sabia que eles não deviam lhe cobrar daquele jeito, mas se sentia confusa para responder algo, talvez aquilo tenha sido realmente uma falha em seus afazeres.

O marido chegou, e deu-lhe um beijo na testa, mas quando notou que Ana ainda preparava o jantar, demonstrou logo sua insatisfação, disse a esposa que não entendia por que a mulher havia ficado em casa e não conseguiu fazer o jantar a tempo de quando chegaram todos. Perguntou o que ela fez de diferente para não conseguir fazer o de sempre, e também queria saber por que afinal o seu cabelo estava molhado. O que a fez tomar banho durante a tarde!?

Ana Lucia ignorou a todos, sentiu-se tão mal como jamais sentira antes, talvez a vizinha estivesse certa, e ela não passasse de uma empregada, já que ninguém perguntou sobre ela, apenas sobre o jantar, e até o marido sempre tão agradável lhe pareceu passivo de desconfiar de sua honestidade. Naquela noite Ana ficou a admirar a sua família enquanto jantavam. Todos se fartaram, e nem mesmo notaram que ela mal tocou na comida, talvez achassem que fosse um favor lhe dar o que cozinhar, e serem alguém para que ela cuidasse, talvez eles se sentissem como os responsáveis pela vida de Ana Lucia acontecer, e ela sentiu que vivia em torno deles, e só.

Ana Lucia se sentiu triste, foi se deitar primeiro que todos, e para sua surpresa ninguém se importou, parece que não fazer o jantar no horário de sempre irritou mesmo os moradores da casa. Ana logo adormeceu, mas foi acordada no meio da madrugada:

 – Quem é você no mundo?  - Ana Lucia saltou da cama, o marido acordou assustado e pediu que ela fosse dormir. Ela disse que ouviu alguém chamar por ela. Mas o marido disse que ela fosse dormir, provavelmente não era nada, e amanhã ele levantaria bem cedo para ir ao trabalho, e ela poderia dormir até tarde, assim ele se virou para o lado e dormiu rapidamente.

Nesta madrugada Ana Lucia não conseguiu mais dormir, ficou pensando tantas coisas que só de contar já causa desespero, lhe veio à mente todas as palavras grosseiras dos filhos e marido, então a voz voltou a dizer: - Ninguém se importa com você, nem insista. Você não existe! Você não é nada! Ana Lucia se sentiu em desespero estava começando a ficar com medo daquelas vozes, existia algo errado com aquilo, tinha vontade de gritar de medo, mas imaginou que pudesse ser perturbação de sua cabeça.  Mesmo não sendo muito ligada a religião ela começou a rezar, e pedir tranquilidade em seu coração, e logo adormeceu. Assim que acordou sentia-se bem, lembrou-se de seus sonhos de adolescência, e dos planos de ter uma família, se recordou dos filhos pequenos brincando pela casa. Então ouviu uma voz suave dizer: - Você é grande, todos somos grandes, acredite que você é grande.

Ana jamais comentara sobre as vozes que ouvia, tinha medo de parecer louca e até ser internada por isso, e sentiu na pele o que as vozes poderiam lhe causar, pois é incrível como quando se está perdido as coisas acontecem para piorar, parece que o mundo pretende degradar você. Certa as vozes de Ana interferiu seriamente na sua vida. Assim que o marido chegou, a voz disse para que ela olhasse no bolso dele, e lhe falou que ele estivera com outra mulher e que se atrasou por este motivo. Ana Lucia fez o que ouviu, revistou os bolsos e encontrou um bilhete com um telefone e o nome de uma mulher. Neste dia a casa quase caiu. Ana Lucia avançou no marido, disse que ele a estava traindo e foi a maior briga, o marido jurou de pé junto que não era nada do que ela estava pensando, mas até hoje não se sabe de nada. Sabe-se apenas que depois disso os dois ficaram ainda mais distantes do que já estavam.

Os filhos ao ver a mãe a cada dia mais triste e sem animo para fazer as coisas de casa, contrataram uma empregada, que fazia de tudo, e ainda ficava de olho em Ana Lucia, que não dizia nada, mas ouvia: - Tá vendo como eles são, depois que morreu Miranda, como as coisas andam! Você não é útil. Você não é nada! Ana Lucia se enfureceu, não era possível que ninguém se importava com ela, não era possível que ela era apenas quem cuidava das coisas.  – Acalme-se. – Disse a voz tranquila. – Não leve isto a sério, reaja, converse com eles, não se entregue.

Indignada Ana resolveu que iria trabalhar,  mas ninguém a queria, não tinha diploma algum, nem mesmo entendia de internet, tentou por duas vezes fazer faxina em casa de família, e além de pagarem pouco, os filhos acharam um desaforo terem uma empregada em casa enquanto a mãe queria fazer faxina na rua, e nas duas vezes foram até o trabalho da mãe busca-la. Foi depois disso que a mulher ficou ainda mais depressiva, sem ação alguma, Ana Lucia não sentia que tinha forças para lutar contra qualquer coisa, ela havia feito escolhas ruins e agora não sabia como fazer para muda-las.
Em pouco tempo Ana Lucia começou a beber, tomava conhaque, uísque, ou que tivesse de alcoólico em casa. O marido disse que não colocaria mais nada de álcool em casa, pois não queria que ela bebesse, Ana ficou furiosa, pegou algumas coisas de casa e vendeu em troca de bebida, a mulher estava muito revoltada, a cada dia entendia que a voz grave era a que estava certa, não tinha nada que a fizesse acreditar na voz tranquila, pois ela queria que Ana continuasse a ser escrava, inútil e sem reação, e isto Ana não estava mais disposta a ser.

A cada dia Ana se sentia mais triste, não fazia nada em casa, e sempre ouvia as vozes... Continuava a brigar com o marido, e começou a pegar dinheiro dos filhos e do marido, ou o que visse pela casa, e usava para beber no boteco da esquina. Agora era oficial, a exemplar mãe de família havia se tornado alcóolatra. Mas o marido não lhe negava mais dinheiro, ou ela fazia escândalos de varias naturezas.
Os filhos a levaram ao medico, psicólogo, neurologista, entre outros, queriam ter a mãe de volta, o médico disse que era uma doença moderna, mas que sempre existiu, a tal da depressão, os filhos a esta altura pareciam realmente preocupados, mas talvez fosse tarde.

– Eles mentem, querem a mesma empregada, é tudo fingimento.  Ana Lucia se sentia confusa, enquanto a voz grave dizia isso, a outra insista: - Dê a eles mais uma chance, todos te amam, não se entregue a amargura, o amor esta em você. Mal uma falava e a outra dizia também. – Os deixe só! Cuide da sua vida, não faça mais nada por eles, são todos mentirosos!

Ana Lucia estava a ponto de enlouquecer, mas a ninguém contava sobre o que ouvia, e depois de ouvir a filha falar sobre internação em clinica de reabilitação, foi o bastante ela se entupir de álcool, e em uma das idas ao boteco também experimentou drogas, neste dia a mulher passou dos limites e por incrível que lhe possa parecer ela ouviu a voz grave ainda mais alta, constante e viva, e foi a ultima vez que a voz aguda lhe falou algo que ela não faz ideia do que era. 

Depois desse dia não me lembro de mais ter ouvido falar na sobriedade de Ana Lucia, na verdade, para eu me lembrar disso precisaria ler este conto desde o inicio, para assim tentar entender o que aconteceu de verdade com aquela mulher, e em que detalhe ela se deixou perder de si mesma.

Após vários cuidados médicos, Ana começou a tomar alguns calmantes, isso a ajudou inicialmente, e a voz a deixou em paz por algum tempo, em algum momento até se teve sinais de que Ana Lucia poderia ser tornar lucida novamente, e não digo que seria aquela antiga dona de casa de sempre, mas que saberia falar sobre si, e que pensaria em algo para a sua vida além de beber e se drogar.

Ana parecia bem certa tarde, pena que as aparências enganam. Ouviu a voz gritar tanto em seu ouvido que parou para ouvir, não falou mais nada, não tentou responder, nem a ignorava mais, tentava entender por que ela dizia tantas coisas sobre a sua existência, e por que tantos questionamentos quanto a sua utilidade no mundo e na vida das pessoas. Ana não entendeu, mas havia aprendido um jeito de silencia-la. Aquela tarde resolveria tudo.

Pegou o seu frasco de calmante com cerca de trinta comprimidos e os tomou de uma vez, afinal se apenas um era capaz de silenciar a voz por uma noite, certamente todos sendo ingeridos com uísque teriam um efeito muito mais eficaz.

As vozes se calaram de uma vez, e também silenciou Ana Lucia, assim se acabaram as perguntas e as duvidas, e se tornou nada tudo o que lhe restara, assim sua perturbação teve fim.

Ninguém a sua volta conseguiu entender o que aconteceu com Ana Lucia, cada um criava um motivo a sua maneira, e em cada explicação podíamos acreditar em suas razoes. A sua família logo se refez, marido e filhos seguiram em suas vidas, pois sempre seguem, e quando isso não acontece terminam como Ana Lucia.

As doenças da mente podem ter varias formas e nomes, o importante é não se perder e ser forte, a cada um de nós cabe a decisão de entender a própria existência, e negar ou silenciar as suas indagações pode ser ainda pior que a morte, pode ser a desistência de seguir.




Por: Grazy Nazario. 

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A Fuga do Mundo

Da série - Mais um conto que eu conto

Foi com seu jeito simpático e alegre que Miguel, um senhor de idade cheio de historias ganhou o coração e a confiança de todos a sua volta. Sempre com palavras sábias, bons conselhos e um sorriso nos lábios, o velho Miguel, como gostava de se referir a si mesmo, era a sensação de onde vivia. Apesar de estar perto de completar um século de vida, Sr. Miguel esbanjava disposição e vigor, não dispensava o perfume, nem as roupas bem cuidadas, e não passava em lugar algum sem mexer com alguém, queria ser notado, e sempre era.

 O velho Miguel há alguns anos vivia em uma casa de repouso, mas parecia que nem tinha consciência disso, ou talvez nunca quisesse ter, e se comportava como se estivesse em sua própria casa. Ele vivia na ala leste, que era a divisão em que ficavam os mais “dispersos” da cabeça, ou com problemas mentais, ou de assimilação, ou como você achar melhor classificar.  Eu confesso que me impressionei ao ver aquele simpático velhinho na ala dos “observados”, mas tive que considerar que talvez o fato de sua idade avançada fosse um motivo para estes tantos cuidados.

O lugar onde Sr. Miguel estava hospedado era numero 1 no segmento, a mensalidade do lugar era caríssima, e só pessoas com muito dinheiro poderiam pagar. O Sr. Miguel não tinha do que reclamar quanto as suas roupas, sapatos, ou qualquer objeto para a sua higiene pessoal ou qualquer outra coisa. Tinha televisão, jogos de palavras, que inclusive era fã, pois dizia o ajudar a manter a mente alerta, além disso, seus discos preferidos sempre podiam ser ouvidos do seu quarto. Também fazia tarefas esportivas e quando não estava chovendo podia ir sempre ao imenso e belo jardim.

Mas as coisas mudam, o velho Miguel sempre dizia isso, e aconteceu com ele. Um belo dia, aliás, isso não é verdade, o dia estava bem chuvoso, Miguel ficou a observar a chuva por um longo tempo, e sem nenhum tipo de explicação plausível, algo mudou. Estava perto dele completar noventa e nove anos  quando a equipe de cuidadores da Ala leste notou uma mudança no comportamento do velho Miguel, sempre tão alegre e brincalhão, o paciente do quarto 22 já não era mais o mesmo, ficara sem apetite, não estava tão incomodado com a aparência, nem mesmo o seu simpático elogio com o cabelo das enfermeiras ele estava fazendo. Estranhando o comportamento, a enfermeira responsável por seu setor se preocupou, e resolveu que deveria conversar com ele, talvez fosse algo ligado a sua hospedagem, e um hospede como o Sr. Miguel insatisfeito não era nada bom para a imagem do Asilo.

Assim Rita foi até o quarto 22, com a sua doçura de sempre, a moça perguntou sobre as acomodações, a comida, e o tratamento à ele por parte dos cuidadores. O velho Miguel por sua vez, foi enfático. Disse que estava tudo bem, e que não existia nenhum problema com as meninas ou os rapazes que o ajudavam, e que a comida continuava muito boa, as pessoas atenciosas tanto de limpeza, ou de qualquer outro setor, e que até o guarda Matos, o rapaz que cuidava da entrada e saída de pessoas, até mesmo ele, continuava insolente, ou seja, estava tudo igual.

- Mas o senhor não parece bem Sr. Miguel. Eu estou preocupada. - Disse Rita, que realmente nutria um cuidado especial com o bom velhinho.

- Estou normal minha querida. – Ele disse com pouco entusiasmo. – Não tem por que preocupar-se com este velho aqui, deve voltar a sua atenção para as suas coisas. Tem pessoas aqui que precisa de mais atenção e cuidados do que eu.

- Todos precisam Sr. Miguel, por isso estão aqui. – Disse a mulher de forma gentil.

- Não minha querida. Estamos aqui por que somos abandonados. – Disse o Sr. Miguel sem magoa, e com uma franqueza inacreditável.

- Não diga isso, Sr. Miguel. – A mulher sorriu como quem esconde uma afirmação. – O Sr. Nunca pensou assim, sempre viveu bem aqui, fez amigos... É de se estranhar este comportamento. Aconteceu alguma coisa?

- E o que precisa acontecer pra você mudar? As coisas mudam mesmo minha querida, estamos vivos, e é isso o que acontece com a opinião e a vontade das pessoas, mudam. Eu não morri, estou aqui neste mundo ainda, logo completo cem anos, e tenho uma visita mensal de apenas uma filha.

- A sua filha não o visitou este mês Sr. Miguel? – Perguntou Rita, como se algum motivo existisse em algum lugar daquela conversa.

- Mas eu criei quatro filhos! – Disse o velho Miguel sem se exaltar, ou responder a pergunta de Rita. – Eles estão fortes e robustos, eu tenho uma filha de setenta anos! Mas onde estão os outros? O que devemos esperar dos nossos filhos, por que eles são obrigados a nos amar e se dedicar a nós?  Não tenho pena de mim por isso, eu sei que sou meio esclerosado, e estou sob um monte de pelancas, tive tanto trabalho pra conseguir dinheiro, e agora estou aqui! – Ele suspirou, os seus olhos não tinham brilho, e era indecifrável o tom de suas palavras.

- Eu não quero o senhor assim, isso não esta certo! – Disse Rita com sinceridade.

- Eu quero sair daqui minha querida. Quero ir para o mundo e rever as coisas que dão sentido a vida. Será que ainda existem? – Ele se perguntou e esbugalhou os olhos para a enfermeira.

- Claro que sim. – Ela respondeu com uma certeza, que até hoje eu não encontrei. E que também não convenceu o velho Miguel, fato que ficou muito claro para a enfermeira.

Preocupada com o ilustre paciente, Rita se organizou em fazer algo para agradar o quase centenário, e melhor cliente da casa de repouso. Chamou a filha mais participativa, e lhe contou o que acontecera, e até ousou pedir para os outros filhos o visitarem. Claro que a resposta não podia ser diferente, os dois filhos disseram que trabalhavam muito para manter o patrimônio da família, e não tinham como irem a um lugar tão longe, e que antes do centenário iriam com certeza. A outra filha disse logo que não poderia ir, tinha viagem marcada pra Europa, impossível de adiar para qualquer visita rotineira, e que a outra irmã já o visitava por todos.

 Rita ficou chocada com todos os relatos, e a partir daquele momento passou a admirar o velho Miguel por ter mantido por tanto tempo um bom humor admirável diante de uma realidade tão “estranha”. Ao menos, foi assim que Rita se sentiu.

Mesmo diante de todas as preocupações da enfermeira, Miguel tinha outras ideias. Assim que recebera a ultima visita da filha, soube que era tataravô. Ficou encantado, e assustado ao saber que a bisneta tivera um filho ainda tão jovem. Mas ainda assim dizia que a natureza da vida era a reprodução, e que não existia dom maior do que dar vida a outro ser. Talvez seja isso, ele disse para si mesmo, talvez esteja aí o sentido de que estou falando.

A partir daquele dia, Sr. Miguel colocou na cabeça que não queria mais ficar ali dentro. Depois daquela tarde, todos os dias o velho pedia para ligar para a filha, que depois da decima ligação decidiu não mais atendê-lo.  Mas mesmo assim Miguel não desistiu, pediu pra falar com o diretor da clinica, e se lamentou para as faxineiras. Na tentativa de uma fuga, quase convenceu a cozinheira e a ajudante dela a facilitar a sua saída pelos fundos da cozinha, mas para a tranquilidade de todos, elas tiveram medo de que ele não chagasse a lugar nenhum, já que a clínica ficava longe do centro, ou de outra cidade com transporte.

Aquela situação se tornou preocupante para Rita e os outros funcionários, a partir daqueles casos de escândalo envolvendo o Miguel, ficou fácil entender por que aquele velhinho simpático sempre ficara na ala leste. E mesmo diante daquelas tentativas frustradas e mudanças de humor, ninguém entendia por que aquele homem dócil se tornara alguém obcecado em fugir de um lugar que sempre adorou estar.  

Como era de se esperar o antes “bom velhinho” e agora “mala sem alça” Miguel não parava quieto, as suas tentativas se tornavam a cada dia mais arriscadas, e embora a família tivesse sido avisada, de nada adiantou, e nem mesmo na casa de repouso apareceram. Mas em uma de suas peripécias, o velho Miguel aprendeu o que significava “o corpo não acompanhar a mente”.

 Numa manhã em que o velho tentou andar mais afobado, o que todos temiam aconteceu, ele caiu, um tombo leve, mas que pode custar caro para um quase centenário, e custaram sim alguns ossos. Como o danado do velho continuava agitado, e ainda com a infeliz ideia de sair da casa de repouso, Rita pediu que o amarrassem na cama. E como era de se esperar, isso o deixou ainda mais irritado.

Mesmo com a melhora do osso da perna, Miguel continuava teimoso, e nada tirava aquela ideia da cabeça dele. Numa tarde, o Sr. Miguel dormia em sua cama, e ainda amarrado acordou com a presença de um homem em seu quarto, abriu bem os olhos e viu que uma enfermeira o acompanhava. Logo perguntou quem era o tal sujeito, ela respondeu que era um homem que reformaria os moveis do asilo. Miguel ficou reparando o homem tirar algumas medidas da poltrona e do sofá do seu quarto, assim que viu a enfermeira sair do quarto, chamou o tal homem pra perto dele.

 Ao chamar o homem para perto, o velho fez a sua aparência carismática de outros tempos. Disse que estava amarrado à meses, e que não se alimentava ou tomava nenhum remédio para dor, reclamou das roupas, da sujeira, e também disse que tinha setenta e oito anos, mas que devido aos maus tratos, parecia ter mais de cem! E assim se lamentou aos montes para o inocente senhor e prestador de serviços gerais de tapeçaria. Aquilo mexeu demais com o leigo trabalhador, ao olhar a situação o tal homem ficou horrorizado, olhou o pobre velhinho amarrado, parecia sujo, e com certeza aparentava pra lá de cem anos!

Assim, o homem sem conhecer nada da historia de Miguel, tomou a atitude menos aconselhável naquele momento. Primeiro ele pensou em desamarrar e ajudar o pobre senhor a fugir, mas logo considerou que isso seria um crime! E os criminosos eram os donos da clinica e não ele. Foi assim que o tal homem foi até a televisão, vigilância sanitária, e todo e qualquer órgão que pudesse levar algum fiscal a tirar o simpático velhinho daquele lugar horrível que amarrava as pessoas e as deixava sem nenhum alimento, vivendo apenas à base de soro.

Em pouco tempo a televisão estava lá, e foi o maior fuzuê, muita gente, polícia, e até as duas filhas do velho Miguel foram saber o que estava acontecendo. Claro que era tudo mentira dele não é mesmo! Ele sabia que estava preso para não tentar descer da cama e se machucar ainda mais, mas isso não importava, o que ele queria era sair de lá, e conseguiu.

Pois bem, mesmo depois da vigilância e outros órgãos certificarem que estava tudo de acordo, o velho falou tão mal do lugar para as filhas, coisas que fez parecer que viver em um presidio em superlotação parecia mais agradável do que o lugar. As filhas sabiam que aquilo era um exagero, mas para evitar mais confusões trataram de tirar o velho de lá.

Passaram-se cerca de três meses, Rita estava na recepção principal quando ouviu insistentes toques da campainha, logo se certificou que era a filha do Sr Miguel na recepção, aquilo lhe causou estranheza, e desde um processo movido pela família, até a morte do velho Miguel lhe passaram pela cabeça, mas para sorte ou azar, não era nada disso. A filha dele entrou desesperada pela recepção da clinica, perguntando por seu pai, disse que o velho havia fugido há no mínimo 12 horas. Rita se intrigou ainda mais! E logo questionou, perguntando por que afinal o seu pai iria para a clinica, se a poucos meses fez um alvoroço gigantesco para sair de lá.

A filha do Sr Miguel logo se explicou para a enfermeira, dizendo que algumas semanas depois que saiu da clinica o pai surtou, e disse que não queria ficar naquele “mundo de loucos”, foi assim que ele descreveu, e que o sonho da sua vida seria viver até a morte neste asilo. Rita se assustou, ou o Sr Miguel era um idoso bipolar, ou completamente louco!  Alguns minutos após esta conversa, Rita enxergou o velho Miguel entrar pela porta:

- Sr. Miguel, o que o senhor faz aqui!?

- Pai, como o senhor veio parar aqui!? – Perguntou a filha de sr. Miguel assustada.

- Ué, eu vim no seu carro. Eu estava lá no banco detrás, me escondi, porque sabia que você viria me procurar aqui, e é aqui que eu quero estar. – Afirmou ele satisfeito enquanto se sentava no sofá.

- Mas não é desse jeito! O senhor não sabe o que quer, então vamos decidir o que fazer! – Retrucou a filha irritada.

- Ninguém irá decidir o que eu vou fazer da minha vida! – Disse Miguel convicto e rabugento.

- Se acalmem! – Interveio Rita dentre pai e filha. – Diga Sr. Miguel, por que o senhor quer voltar para cá, se criou uma baita confusão para sair?

- É muito simples minha filha. O mundo está louco! – Ele disse ao arregalar os olhos.  – Aqui eu não preciso ver disputas por heranças, filhos e netos brigando  por dinheiro, carros, tudo mais que o dinheiro compra. Aqui eu tenho amigos, e não me sinto como se fosse um peso na vida de alguém. 

As pessoas não valorizam mais nenhuma companhia, só valem se tiver cargos ou sexo, e eu já não posso oferecer um ou outro.

- Mas o senhor não disse que queria saber o sentido da vida? – Perguntou a enfermeira realmente curiosa com a resposta do velhinho.

- Minha querida. – Ele sorriu. – Isso depende de cada um, depende daquilo que você quer e como quer, e para mim não faz sentido estar aonde eu não me sinto bem.

- Mas quem garante que daqui a alguns meses o senhor não mudara de ideia e aprontará outra daquelas comigo?

- Não se preocupe, eu não quero fugir daqui, prefiro fugir do mundo! O sentido da vida pode ser apenas viver, a partir da consciência que você tem, não precisa eu estar aqui ou lá, o importante é que eu esteja em mim, e saiba aproveitar o melhor para o meu corpo, mente e espirito. E eu quero estar aqui.

Rita se comoveu com as palavras do idoso, e se convenceu de que ele realmente sabia o que queria, talvez conviver com a família depois de tantos anos o fizera ver as coisas de um modo diferente, e isto era um bom motivo para o seu retorno, assim aceitaram o velho Miguel de volta. Mas mesmo assim todos se sentiram inseguros com o quase centenário por lá, ele representava um perigo para todos, já que visivelmente não estava muito bom das ideias. Rita pediu para reforçar os cuidados com ele, e sentiu pena ao imaginar como ele se sentiria mal se soubesse o que a presença dele representava para o asilo, um perigo.

Naquela noite, o velho Miguel dormiu como se realmente fosse um anjo, ao encostar a cabeça no travesseiro sentiu o seu corpo leve, mais leve do que em qualquer outra ocasião. Ele imaginou talvez fosse a leveza de sua consciência ao assumir o que queria de sua própria vida, e exigir isso, assim como o fato de ter esclarecido as coisas e se entendido com a enfermeira e os amigos, como era bom sentir algo assim, pensou Miguel antes de cair no sono. Seu corpo adormeceu, assim como a sua mente em repouso tranquilo.  E foi assim a ultima vez que se ouviu falar do velho Miguel, o seu sono abençoado foi direto para a eternidade, e tão logo ele não estava entre os mortais.

 Sempre que eu conto esta história muitos dizem que apenas os privilegiados morrem durante o sono, e que isso é algo extraordinário, mas o velho Miguel diria que abençoado é seguir a sua vontade, e ao acertar usufruir do sorriso, ao errar conseguir acertar as coisas antes de ir embora, segundo ele, esta seria a melhor benção que poderíamos receber.





segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O torcedor e o Anjo

Da série - Mais um conto que eu conto

 


A todo o tempo nos vemos confundidos e surpresos por situações já conhecidas, mas que simplesmente não paramos para pensar, talvez falta o “tempo”, ou apenas interesse mesmo.  São assim, quase imperceptíveis os contrastes que nos acompanham, e que muitas vezes não percebemos, caminhamos com a queda e o triunfo, assim também acontece com o amor e o ódio, ou mesmo a lucidez e a loucura, apenas uma linha tênue os separam de ser um ou outro, enlouquecer com as confusões de nossa mente pode ser questão de tempo e espaço, é assim, com todas as pessoas que param mais de alguns minutos para pensar, para questionar o porque de tudo, e validar a própria existência. Assim era Pedro, com a sua ingenuidade quase dissimulada, chegou de forma tosca a um momento de desentendimento, e a partir do que estaria tão definido e claro, surgiram as duvidas. A sua historia é algo inacabado, assim como a nossa, a cada dia uma linha com novas situações ou velhos problemas, assim ele aprendeu e ensinou, e como todos nós, tem muito a contar.

Pedro sempre foi muito agitado, desde criança já era briguento e algumas vezes se envolveu em brigas na escola, não era considerado um mau menino por colegas e professores, mas tinha o “pavio curto”, e isso era um problema sério para todos a sua volta. No entanto, não era tão difícil controlar o garoto, até alguém falar do seu time de coração. Isto mesmo, Pedro era fissurado por futebol, mas não estou falando de torcer uma vez por semana na frente da televisão, isto é coisa de pessoas normais, e isto estava longe de ser a normalidade dele. O garoto colecionava tudo, desde álbuns, camisetas, à papeis de bala, era uma verdadeira doença. Mas todos encaravam isso como algo normal, já que ter ídolos faz parte do desenvolvimento da criança, ao menos foi o que disse o psicólogo aos pais, quando julgaram que o garoto estava passando dos limites.

Conforme Pedro cresceu, pouco foi mudado, o rapaz já acostumado a ir a todos os jogos do time de coração, organizava a sua vida em relação a qualquer aspecto baseado nos jogos do seu time. Logo começou a trabalhar, e é claro que todo dinheiro que tinha nas mãos iam direto para despesas com os jogos. Os seus amigos eram todos da torcida que fazia parte, lá existiam pessoas de todas as classes sociais, e em pouco se diferenciavam de Pedro, os assuntos eram o time, as contratações, os campeonatos, nada fugia daquilo, inclusive os torcedores dos outros times, que eram como inimigos mortais.

A adoração de Pedro pelo futebol não era algo feito, ou arquitetado por alguém, o pai era torcedor, mas nada fora do comum, nem tinha tios ou outros parentes que se comportavam assim, aquela dedicação de Pedro era algo que vinha dele, e nem mesmo ele sabia como ou porque estava ali, e também jamais se interessou em saber como aquilo se iniciou, o importante era que ele se conhecia daquela forma, e era assim que levava a sua vida.

Pedro além de ser jovem, era um belo rapaz, corpo esbelto e com um ar de menino incorrigível, era difícil entrar em algum lugar e não ser notado, muitas meninas queriam namorar ele, e algumas até conseguiram, mas todas enfrentaram sérios problemas em relação ao seu fanatismo. A começar que o rapaz pouco tinha de tempo para se dedicar a muitas coisas, já que trabalhava, e as horas de folga quase sempre estavam ocupadas. Todas as garotas que namorou cobravam que queriam fazer “programas normais”, já que o rapaz só queria estar nas arquibancadas, inclusive viajando para não perder nenhum jogo, era coisa de louco mesmo. Sem contar que a garota não podia, de forma alguma, torcer por outro time, isso era imperdoável. Além disso, Pedro se dizia “sem tempo”, e dizia que para namorar era preciso dedicação, e ceder em coisas que ele nem estava disposto a pensar, ele queria torcer e acompanhar o seu time com liberdade, do jeito que era, e outras preocupações o atrapalharia, assim conhecia uma e outra e estava satisfeito.

Por algumas vezes Pedro se envolveu em assuntos graves envolvendo futebol, torcidas, brigas e até uma morte. Os pais acreditavam que o filho não era uma má pessoa, e como nada foi provado, ele não foi condenado. Mas Pedro sabia de sua culpa, sabia que havia feito diversas maldades, mas o incrível é que ele não se importava, era como se não fosse com ele, como se estivesse distante de ter consciência de algo além da sua paixão.

 Era uma vida limitada em vários sentidos. Pedro não saia muito, os seus passeios eram sempre para o estádio, queria assistir o seu time de futebol, podia ser no final de semana a tarde, a noite ou até de madrugada, como assim fizera quando o seu time foi para outro continente. Pedro não media esforços.

É claro que um comportamento tão exagerado iria gerar diversos conflitos, tanto com os pais, como com qualquer outra pessoa que não concordasse com a sua conduta, ou a sua visão. Pedro vivia como se estivesse envolto por algo que desconhecia, era como se ele não controlasse mais o que pensava e o que sentia, como se a sua vida não lhe pertencesse, e ele estivesse sendo guiado por algo mais forte e mais importante que ele.

Certa ocasião algo aconteceu, e foi como se um tsunami tivesse atingido a vida de Pedro, sabe aquilo de bagunçar tudo, quebrar as suas certezas e questionar as suas conquistas! Foi assim, de um modo como ele jamais imaginaria que fosse possível. Pedro se envolveu em mais uma briga, mas dessa vez ele levou a pior. Após uma emboscada, feita provavelmente por pessoas como Pedro, ele foi atacado junto com mais dois amigos, André e Gustavo. Dessa vez ele havia apanhado de outros torcedores e da policia, e só não morreu porque Deus não permitiu, segundo as palavras de sua mãe.

 Depois de dias internado no hospital, entre a vida e a morte, a mãe se revoltou. Inconsolável dona Cecilia não se conformava com o que estava vendo, se punia, e se perguntava onde estava o seu erro, afinal, em que parte estava o momento que ela deixou passar, o que então, ela poderia ter feito para impedir que o seu filho se tornasse alguém sem identidade, sem amor, ou sem qualquer compaixão por si e pelo próximo, não entendia como o filho se tornara um homem sem nenhum respeito a ninguém, já que por varias vezes fizera o mesmo com outros torcedores, e também já deixara outras mães naquele estado. A mulher não se perdoava, não entendia, e se questionava. Por que comigo? Por que com ele?

Em meio a um desespero apenas de quem é mãe, ela chorou, mas Cecilia chorou por tanto tempo que pensou que fosse secar todo o liquido do seu corpo por tanto sofrer. Após passar o inicial momento perturbador, a mãe de Pedro se sentiu parte daquilo, e a parte mais culpada possível. Assim, Cecilia que não era nenhuma Beata, mas que também não era incrédula ajoelhou-se frente o filho, ignorou a presença da enfermeira do leito ao lado e iniciou uma prece.

Naquele momento Cecilia pediu para Deus e todas as criaturas do céu e da terra, que tivessem algum poder a mais que ela, e que de alguma forma pudesse ajuda-la e ajudar ao filho, que se manifestasse. A fé de Cecilia parecia movida pela dor, a mulher começou a sentir o corpo esquentar, primeiro as mãos, até chegar aos pés, nem de longe sentia o frio que estava quando chegou ao lugar. Ainda em sua prece, pediu que o filho fosse livrado daquela doença, mas ela não falava dos hematomas e das fraturas, a doença era referente ao futebol, mas não apenas ao futebol em si, mas a todo resto. A mãe centralizou toda a sua fé em uma força extraordinária, a quem pudesse intervir a favor de um ser que lhe pedia atenção e socorro.

Após a prece, dona Cecilia sentiu um cansaço fora do normal, deitou na poltrona que tinha no quarto e foi tomada por um sono profundo, que até hoje não se sabe de onde veio, mas Cecilia, diz saber sim, e muito bem.

Pedro estava radiante em sua arquibancada assistindo a mais uma partida de futebol do seu time, o seu coração vibrava, seria possível que o seu time fosse o campeão da rodada, mas naquele jogo o time não estava bem, Pedro estava bem irritado. Em certo momento, Pedro percebeu a presença de um homem, ele estava sentado ao seu lado, vestia calça marrom e uma blusa amarela, Pedro estranhou as vestes, já que o uniforme era um orgulho para os torcedores. Olhou para o homem e algo lhe soou familiar, talvez os olhos, e o sorriso pareciam de alguém bem conhecido, e isso gerou certa simpatia entre os dois.

O homem logo puxou assunto com Pedro, lhe disse que por mais que conhecemos as pessoas nunca é o bastante, porque cada um percebe as coisas de acordo com a sua visão do mundo, e isso as vezes muda, você pode ver as mesmas coisas varias vezes e a sua opinião ser diferente, pois vai depender do seu humor e da sua sensibilidade daquele momento, e disse que não tinha como definir aquilo. Pedro achou o papo muito estranho, quis rir na cara do sujeito, mas achou que não seria legal, também achou bem sem graça o tal homem lhe falar coisas sem pé nem cabeça em uma partida de futebol. Então o homem continuou a conversar com ele. Disse a Pedro que o conhecia um pouco, e já fazia ideia do que ele estava pensando, mas que ia explicar o que queria dizer. Pedro não se assustou, na verdade ele se interessou muito, e sentiu que o som do campo ficava distante, já não ouvia mais os gritos da torcida ou o barulho dos jogadores do campo, era como se ele observasse o jogo de um camarote fechado, e que estava apenas ele, e o tal homem simpático.

O homem olhou bem para o campo, disse que entendia aquela vibração toda, e que a energia daquela torcida era algo muito bom, mas não conseguia compreender por que Pedro não queria se desligar daquilo. Na verdade, ele sabia muito, demais mesmo, mas a resposta de Pedro era muito importante, não para o homem, e sim para ele. Pedro se empolgou, abriu um sorriso de orelha a orelha, coisa linda de ver os olhos de alguém brilhar com tanta sinceridade, acho que aquilo é amor, e se não for é algo bem próximo de amor. Sem pestanejar, Pedro começou a falar, mas as palavras foram tão belas, que prefiro reproduzir como ele as disse:

- Você esta errado moço, a vibração e energia não são boas, isso é maravilhoso! Ninguém que não esta aqui comigo pode saber o que eu sinto.

- Então me diga você. – Disse o homem.

- Existe uma vibração que faz o corpo arrepiar, o sorriso ficar na porta da boca, e cala a minha voz. Não importa quem são os jogadores, ou o que estão dizendo sobre quem nós somos, por que juntos enquanto carregamos esta camisa somos um só, em um único objetivo, de gritar gol. Não importa a religião, se é homem ou mulher, negro ou branco, criança ou velho, aqui somos um só, aqui somos o nosso time. Você já sentiu o seu coração bater bem forte, como se fosse sair pela boca, como se dissesse aos gritos que você está vivo, já sentiu uma emoção de subir dos pés a cabeça?

- Sim. – O homem sorriu. – Eu sei do que esta falando.

- Olhe para este lugar. – Pedro apontou para o centro do campo, passou os olhos por toda a torcida, pelo rosto das pessoas, a agonia, a aflição, o medo, a alegria... Parecia que todas as emoções estavam presentes ali, em cada rosto, em cada pessoa daquele lugar.

- Você tem razão Pedro. – Disse o homem como se lesse os seus pensamentos, como se não precisasse mais abrir a boca para dizer algo, como se existisse uma sintonia fina e agradável entre os dois. Pedro percebeu isso, e não ignorou.

- Eu sei que tenho razão. – Ele respirou fundo e sorriu com leveza. – Isto é incrível!

- Pedro. – Disse o homem como se tivesse uma intimidade inigualável com o rapaz. - Você já pensou que pode estar com os olhos encobertos, por que viver não é tão fácil como parece. Daí se torna mais fácil basear todas as possibilidades de uma vida na vitória ou derrota do seu time.

- Então em que esta baseada a vida Sr. Sábio? Já que é tão sabedor de tudo. – Disse Pedro quase irônico.

O homem lhe sorriu.

Seria bom se fosse assim meu amigo. – Ele respondeu serenamente. – Fazer uma pergunta simples, e receber uma resposta simples.

- Mas tem que ser assim, se eu estou errado, me diga o que é certo. - Respondeu Pedro convicto.

- Mas eu não posso fazer isso, não posso obrigar você a tomar um rumo decidido por mim, você precisa enxergar o que quer, o sentido da sua vida, a sua busca pertence a você, e não sou eu a decidir.

- Assim você me complica! – Respondeu Pedro visivelmente mais a vontade com o homem. E em seguida respondeu. – Já que é assim, eu poderei continuar a amar o meu futebol, continuar a ser um torcedor de verdade, e ser como eu sempre fui.

- Sim. Você pode fazer isso. A decisão é sua, e somente sua. – O homem o olhou nos olhos. – Mas eu duvido que isso aconteça.

- Pois não duvide!

- O que você pensa sobe a morte? – Questionou o homem.

- Eu não tenho medo de morrer. – Respondeu Pedro de forma automática, e logo em seguida pensou.
- Eu nunca parei pra pensar nisso.

- Eu sei Pedro, você não para pra pensar em muitas coisas. – Ele o olhou serenamente. – Faz tempo que não faz isso.

- O que você quer, me confundir? – Perguntou Pedro irritado.

- Eu não quero fazer isso, apenas quero que você se dê outras oportunidades, e que não tenha tanto medo de enxergar a vida como algo grandioso.

- Mas eu não tenho medo disso!

- E do que tem medo?

- Eu não quero parar pra pensar nisso. – Disse Pedro levemente irritado. – A vida aqui dentro é mais confortável, eu consigo sentir todas as emoções... Ele disse tentando se convencer de algo que ainda não sabia o que era.  - Eu trabalho também se você não sabe! – Ele disse, e foi corrigido pelos pensamentos na mesma hora, ele não trabalhava, apenas tinha um meio de manter o seu fanatismo.

- Eu entendi o que disse, estamos em sintonia, o que você sente, eu sinto. – O homem lhe sorriu, e em seguida a sua expressão se tornou seria. - Houve mortes nesta briga. Os seus dois amigos já não estão mais neste mesmo plano que você, eles já não estão vivos da maneira como você conhece a vida.
- Como assim morreram? – Perguntou Pedro extasiado.

- Por medo do que terá que enfrentar, prefere não conhecer as suas responsabilidades. Você acha que está neste planeta agora, que tem um coração batendo dentro de você, órgãos e veias em perfeita sincronia para isso?

Pedro permaneceu calado. Foi a primeira vez que o rapaz sentiu o seu coração bater daquele jeito, sem ser por seu time de futebol, dessa vez com a consciência de que ele estava ali para mantê-lo vivo, e era aquilo, a vida, a única resposta que ele tinha para qualquer pergunta. Pedro olhou para as próprias mãos e notou as veias, e como se sentisse o movimento da corrente sanguínea ficou a observar o funcionamento do seu corpo.

- A sincronia é perfeita. – Ele disse admirado. – Como um time perfeito, com a melhor defesa, e o ataque mais ofensivo que pode existir, e o meio de campo coordenando tudo como um maestro... E o técnico, a nossa mente brilhante, coloca o time do jeito certo. Aí é jogos e mais jogos de vitória, e grandes campeonatos para a nossa coleção.  - Pedro riu da própria analogia. – Você deve me acha um lunático!

- Não, isso você era antes. – O Homem sorriu. – Agora você é um gênio! Mas você deve se lembrar de que, mesmo com um grande time, por vezes perdemos, mesmo lutando muito, e muitas vezes merecendo a vitória, algumas vezes a vida quer nos dar lições, nos fazer enxergar outras situações, ser forte exige muito treino, e continuar sendo bom e doce, é uma habilidade que poucos possuem, afinal, sempre queremos ganhar. Mas as vezes a derrota é que nos ensina a superar coisas esquecidas ou encobertas pelo nosso ego. Todos podem ter bons times, mas nenhum será invencível.

- Eu não sei se quero conviver com isso. Esta verdade me assusta. – Respondeu Pedro covardemente, atitude normal, e esperada por qualquer pessoa.

- Isso também é uma escolha sua Pedro. – O homem tocou em seu ombro. – Tudo aquilo que for referente a você, devera passar por sua avaliação, e cabe a você decidir diante dos caminhos que lhe são apresentados, mesmo quando você os procura, você tem o direito de ir ou não. Isto se chama livre arbítrio.

- Eu não lhe direi o que é certo ou errado. – Disse o anjo. – Apenas lhe mostrarei as opções, para isso o autoconhecimento existe, para assim você decidir a partir do que se conhece o melhor caminho para você.

- Eu não tenho escolha. – Lamentou Pedro.

- Todos temos escolhas, sempre temos.

Ao abrir os olhos o primeiro rosto visto foi o de Dona Cecilia, que mesmo aflita e chorosa, aguardava ansiosa por ver os olhos do filho aberto. Assim que ele viu a mãe, sentiu algo inexplicável em forma de carinho, não se lembrava de muitas coisas, sabia que tinha sonhado, sabia que esteve em uma briga, logo perguntou sobre os amigos, e a mãe lhe respondeu que os dois não suportaram e morreram. Ele arregalou os olhos, num misto de dor e satisfação, teve certeza de que aquilo que vivera não foi um sonho, foi uma chance, que poucos tinham.

Pedro não entendeu muito bem o que acontecera naquela tarde, nada estava muito claro, ele sabia que precisava dar vários passos para algo além daquilo que ele conhecera, mas sabia que os dois amigos já não estavam entre ele, e se ele ainda estava ali, era porque algo ele precisava ensinar ou aprender. E assim faria.


quarta-feira, 15 de julho de 2015

Conto - Sem noção de obcessão

Da série. Mais um conto que eu conto 

 Sem noção de obsessão 

A garota não tinha ainda três anos completos, quando assistiu pela primeira vez uma apresentação de balé na televisão.  Sozinha, e sem ninguém pedir, Laís levantou do sofá e começou a ficar nas pontas dos pés, como se imitasse a dança na televisão, mirou o seu olhar aguçado na bailarina principal, vestida de rosa e de corpo esguio, tentou imitar de modo desajeitado a coreografia daquela canção, que achou simplesmente maravilhosa, e deu o primeiro sinal do que gostaria de fazer por sua vida, ou de sua vida.

A mãe Isabel, ficou encantada, bateu palmas para filha e gravou um pequeno vídeo, dos poucos momentos que conseguiu registrar. “Santa tecnologia”. – Disse a mãe, que já não era tão jovem para ter uma filha de 3 anos, e decidiu que matricularia a menina em uma grande escola de Ballet.
Isabel e o marido demoraram muito para conseguir ter um filho, já estavam juntos há algum tempo e nada de crianças, até que depois de um longo tratamento, Isabel engravidou, e aos 43 anos deu a luz à Laís, o xodó da casa. O pai Júlio, tratava Laís como um bibelô, já tinha idade para ser avô da garota, e tinha dois filhos de seu antigo casamento, mas Laís era seu tesouro, e deixava claro para a esposa que a menina devia ter de tudo, e de nada faltaria para a sua bela princesa.

Mas, como nem tudo são flores, as palavras de Júlio não puderam ser cumpridas a risca, o pai de Laís perdeu o emprego no ano seguinte, já depois de muitos anos de trabalho, a empresa em que trabalhava fechou, e deixou todos sem nada! Claro que este fato foi um choque para a família. Júlio já não era mais nenhum garoto, e sentiu o gosto amargo da guerra que existe no mercado de trabalho na era do capitalismo.

Apesar de tantos problemas causados pela mudança drástica do padrão financeiro, o casal fazia de tudo para manter harmonia, e tinham o  maior cuidado para a “crise” não atingir Laís, e fizeram isso por um bom tempo. No entanto ao longo de dois anos a família precisou fazer alguns cortes drásticos no orçamento, Júlio sentia como se lhe cortassem a alma, mas precisou cortar o balé da menina, e foi aquele drama.

Laís já estava por volta dos seis anos quando soube que não poderia mais frequentar aquela escola de balé tão maravilhosa, que ela fazia questão de ir todas as terças e quintas, e também aos sábados quando possível. A garota deixava de ir viajar, de passear, de fazer qualquer coisa para dançar o seu balé, era como uma doença, era como o ar que respirava. O seu corpo girava em torno de si, e a vida em torno da arte, e daquilo que fazia de bom para o seu coração, e isso era o balé.

- Eu não quero sair do balé! – Gritou Laís em uma mistura de desespero e birra.
- Não temos escolha minha filha. – Respondeu a mãe, com uma paciência que duvido encontrar em outra pessoa deste planeta! A birra de Laís irritava até os pássaros do jardim, só os seus pais não percebiam, mas apesar disso, dessa vez, e por este assunto, Lais não reclamava a toa, e falava de algo que realmente gostava.

- Por favor mãe! – Eu faço tudo o que a senhora quiser! Eu trabalho para qualquer pessoa, pra ter dinheiro, não faz isso comigo! – Gritou a garota exigente.
- Imagine Laís, o balé é muito caro. – Disse Isabel preocupada e surpresa com as soluções que Laís sugeriu para o assunto.

- Eu não quero deixar de dançar! – Respondeu Laís raivosa para a mãe e bateu os pés.  Em seguida começou a chorar desesperadamente.

O pai olhou a cena quase chorando, para ele, aquilo era como se lhe dessem um atestado de invalido ou coisa do tipo. A saída do balé foi muito mais que um simples corte de custos, foi praticamente a ruina da felicidade de uma família. Até então seria difícil imaginar como isso poderia acontecer, afinal era um simples curso de dança! Claro que a garota poderia se tornar uma dançaria dos grandes teatros do mundo, mas também poderia ser só mais uma garota que dança balé até dezesseis anos, e depois começar a fazer qualquer outra coisa da vida. Mas a historia da Laís foi algo incomum, e surpreendente.

Após aquela tarde infeliz e calorosa para todos, Laís ficou muito triste, alias, como era de se esperar. A garota não queria comer, estudar, brincar, nada! Os pais faziam mimos, aqueles que eram possíveis, mas nada da garota reagir, só falava do bendito balé. Passaram-se alguns meses e aquilo que os pais esperavam, ou seja, a conformação de Laís, não acontecia, estavam vendo a hora de a garota adoecer seriamente, já que não comia nada direito, e perdeu alguns quilos depois da decepção.

A tristeza da garota contagiou família toda, parecia não existir mais paz ou alegria no lar de Júlio e Isabel, na verdade não existia mais lar. E mesmo o casal tentado de tudo para não se desentenderam as brigas ficaram cada vez mais frequentes. Isabel não se conformava com o fato de ter largado a sua profissão para ter um lar com Júlio e criar Laís. Dizia: “Agora não tenho dinheiro para pagar o balé da minha filha”! Júlio trabalhava apenas fazendo trabalhos pequenos, era velho para um novo emprego, mas ainda jovem para se aposentar, e não conseguia um fluxo continuo de dinheiro para pagar as suas contas, a vida não estava fácil, e ele muito se lamentava.  

Passado alguns meses Laís ainda não se sentia conformada, e as brigas geradas em torno do assunto ainda aconteciam, mesmo com grandes esforços para isto ser evitado. Até que num final de tarde, Júlio teve uma ideia que julgou brilhante, chegou em casa com um pequeno cachorro, aquilo com certeza seria capaz de alegrar a pequena Laís e trazer um pouco de paz a família. Podemos dizer que o pai de Laís acertou na tentativa, o cachorro de pelos macios e caramelados, realmente deixou a menina exaltando de felicidade. No começo Laís não quis dar bola, mas assim que começou a brincar com o filhote se tornaram amigos, e inseparáveis companheiros. Por um tempo a paz reinou, até Laís se lembrar do balé.

Laís já estava para completar dez anos, e a mãe entrou em seu quarto sem bater, algo que não fazia com frequência, e viu a garota ensaiando de frente para o computador, aquilo despedaçou o seu coração. A menina era birrenta, e chata, e mimada, mas de fato ela amava o balé. A mãe se sentiu triste, como se sentisse a dor da filha, em estar distante de algo tão simples e tão difícil de fazer. “Como é difícil realizar sonhos”! Pensou a mãe. “O que poderia eu fazer por minha filha”.

Isabel logo se prontificou a ajudar a filha, não era possível que não existisse uma bolsa ou algo do tipo para quem fosse apaixonada pelo balé como Laís, ela precisava fazer algo que não a fizesse tão inútil quanto se sentia. Depois de uma longa busca, a mãe enfim encontrou um lugar onde Laís pudesse fazer as aulas, mesmo ficando longe da sua casa, Isabel se comprometeu a levar a filha até a escola.

Laís, como era de se esperar ficou radiante, saltava como uma bailarina ensaiando os passos na sala nas pontas dos pés, a alegria contagiou a todos, até o cachorro saltava de felicidade pelo entusiasmo da pequena adolescente.

Em pouco tempo Laís começou a frequentar as aulas novamente, mas não gostou muito da professora, nem das colegas de palco, dizia que todas eram muito ruins, e que a professora não tinha comprometimento. Sim, isso mesmo, a garota de onze anos usou mesmo esta palavra, “comprometimento”. Laís disse a mãe que a professora tratava a dança como uma distração, como um lazer. E que a mesma não tinha amor à dança, e não sentia a musica tocar as suas veias. A menina estava decepcionada, queria estudar em sua antiga escola, ali a professora lhe ensinara o poder da dança em relação ao corpo e a vida, no seu antigo curso a dançarina lhe mostrara a importância da postura no balé e na vida, e como a mente e o corpo se entrelaçam na dança e na alma. Lá eu aprendi a amar o balé, a música e o meu corpo.

Mais uma vez a frustração aconteceu, Laís continuou a dançar na “escola ruim”, já que não tinha outro jeito, e decidiu que aproveitaria ao máximo tudo o que a professora lhe ensinara, para algum dia, quando enfim trabalhasse voltasse a outra escola e se tornasse uma grande bailarina, e enfim faria os seus números solos. Era o que a menina queria mais que tudo, saber o que uma plateia de verdade poderia causar em uma dança solo perfeita.

Não vendo resultados no que Laís chamava de “Balé amador”, a garota resolveu ir fazer uma visita ao seu antigo balé, queria saber se a sua antiga professora ainda estava lá e se existia a possibilidade de conseguir alguma bolsa ou coisa do tipo. Para a sorte de Laís no dia seguinte haveria uma seleção de garotas para ganhar uma bolsa, a garota se encheu de esperanças, o seu coração ficou descompassado, e ela tinha certeza de que passaria.

Assim que Laís viu outras duas meninas serem escolhidas começou a chorar, ali mesmo no palco, a professora, que já não era mais a sua antiga, chegou perto da menina tentando consola-la e ao mesmo tempo mostrar como era preciso ter força para conquistar sonhos. Laís não se conformava e exigiu explicação da professora.

- Por que eu não posso? Eu sei que sou boa! – Exigiu a menina.
- Você é boa Laís, mas não é excelente, não podemos bancar alguém na nossa escola sendo apenas “boa”. Eu sei de sua historia, a sua mãe veio aqui algumas vezes antes deste programa de bolsas existir. Sei que você é apaixonada pelo balé, mas você ficou muito tempo sem treino, e balé é mais que amor, balé é condicionamento, dedicação... E outras coisas.

- Eu sempre treinei! – Respondeu a menina de forma birrenta
- Sim, percebe-se que você não perdeu o jeito. – Disse a professora com um pouco mais de delicadeza . – Mas é preciso mais que isso para ser uma profissional.

- Se eu tivesse estudado aqui desde aquela época... – Lamentou Laís num suspiro quase inevitável. Em seguida Laís olhou para a professora e disse com animação. – Deixe-me trabalhar aqui, eu pago as minhas aulas. Eu venho aqui de manha, arrumo tudo, limpo, faço qualquer serviço, e assim pago as minhas aulas.
- Que ideia absurda! – Respondeu a professora. – Você precisa estudar.
- Sim. Por favor. – Suplicou a garota. – Eu faço as aulas de sábado, com a sua turma. Eu quero muito ser uma bailarina profissional, este é o único sonho da minha vida, eu penso nisso desde que faço ideia do que é a vida, não me negue esta chance, por favor.

A professora ficou mesmo comovida, e prometeu conversar com as dirigentes e dar a resposta a Laís, como a mãe e o pai da garota autorizaram, ficou acertado que ela faria as aulas aos sábados, e durante a semana ajudaria nas montagens e afazeres da escola. Laís parecia outra pessoa, os seus olho cheios de brilho, nada seria capaz de tirar aquele sorriso do seu rosto. Ajudava com prazer nos afazeres do teatro, passou a ter noção de luz, posicionamento, direção e tudo mais, e tudo isso só a ajudava na hora da dança, no momento em que se sentia feliz, no palco.

Após um curto período, Laís passou a dançar também durante a semana, só pensava em dançar, e o que ela queria mesmo era o papel principal da sua “rival”. Fariam uma grande apresentação dali a alguns meses e a seleção aconteceria em poucos dias, Laís não queria perder, ela não perderia. Mas perdeu. A outra garota ganhou o solo, e mais uma vez, Laís não teria uma plateia só sua.

A rivalidade com esta moça passou a ocupar um espaço importante na vida de Laís, que nem percebera a doença da mãe, que chegara perto de Laís completar quatorze anos, em poucos meses Isabel ficou muito debilitada, vitima de uma doença nos ossos, e logo soube que a filha havia largado os estudos para se dedicar apenas ao balé, o que ajudou na piora do seu estado. Júlio, que de forma alguma queria prejudicar a filha, nada contou no centro de balé, temia atrapalhar ainda mais a vida da menina, já que quando ainda criança não foi capaz de manter ela na escola, para assim ser uma bailarina melhor. E como ele se culpava por isso.

Após uma bela apresentação, a “rival” foi convidada para participar de um grupo de balé Russo, o que deixou Laís cheia de ódio e esperança. A garota decidiu que teria o próximo solo de todo jeito, também seria chamada para um balé internacional. Depois deste episodio Laís começou a treinar freneticamente, praticamente todos os dias e o dia inteiro, se comportava como uma viciada em drogas. O pai se preocupava, mas tinha que cuidar de sua esposa e preferia não contrariar a garota, já que era o seu grande sonho, a única coisa que poderia fazer para ajudar, era não atrapalhar.

Durante um dos ensaios de Laís ela se machucou, aparentemente não era nada grave, e com tantos calos e lesões aquilo era algo comum, isso se a garota cuidasse do ocorrido, é claro. Mas justamente naquela semana viriam os jurados para o próximo projeto solo da escola de balé, e é claro que Laís queria o papel, era na verdade a única coisa que ela queria em sua vida. Na apresentação individual, Laís se saiu muito bem, dançou bem, acima da maioria, mas percebeu que outra bailaria também foi bem, e aquilo a preocupou.

A garota tinha razão, nas contas de bailarinas, Laís já estava velha, não teria muito à evoluir, nesta idade a elasticidade já alcançou todos os cantos do corpo, isto é, para quem treina a muito tempo, portanto, o treino a faria evoluir muito, mas a partir daquilo que o seu corpo permitia. No entanto Laís não pensava assim, e se sentia capaz de derrubar até a maior bailarina do mundo, quando ela dançava, se sentia em plumas, como se flutuasse em algodão, e se ela era capaz de exercitar a mente a tal ponto, de certo o seu corpo o acompanharia. Laís não aceitava derrota alguma, ela dizia a si mesma, “se eu amo tanto fazer isso, é por que deve existir um dom dentro de mim, não será a toa que eu sinto tanto prazer em dançar, e o meu corpo fica tão livre no palco, se eu consigo transcender o corpo através da dança, é por que estou predestinada a ser uma bailarina”.

Diante daquela preocupação, Laís não teve duvidas, percebeu em um dos jurados, um olhar malicioso, baixou a cabeça e correspondeu ao velho, que na verdade não era velho, mas precisamos combinar que diante de uma garota de quinze anos, um homem com trinta e oito não é nada jovem. Ela resolveu tentar de qualquer jeito o que queria, e não correr riscos.

Assim que teve uma oportunidade ficou a sós com o jurado. Não fez nenhum rodeio, já foi dizendo que queria o papel, e que se ele quisesse tirar a sua virgindade já sabia o que fazer. O jurado se fez de surpreso, abriu os olhos arregalados, mas não disse nada. No final da tarde, Laís ganhou o seu papel tão sonhado. No final da noite, pagava a sua divida com o velho, que não era velho, e que foi até bem cuidadoso, ao lhe cobrar o seu pagamento.

Dali a exatos oito meses Laís se apresentaria, não preciso nem dizer o quanto esta menina ensaiava não é mesmo! Era dia e noite, noite e dia, era a coreografia e os ensaios técnicos, a luz e som que ela queria palpitar, e figurino que não estava de acordo com o seu gosto. Era a mãe a cada dia mais doente, o pai agora já aposentado, mas apresentando sinais de depressão, era o jurado querendo sair com ela mais vezes, e ela com o pé a cada dia mais debilitado por não cuidar devido a tanta correria. Laís era tão jovem, e tão adulta, tão descrente e ao mesmo tempo tão confiante.


Enfim chegou o dia da apresentação no maior Teatro da cidade, era coisa grande mesmo, e qualquer palavra que dissesse quanto ao que Laís sentia perto do estomago ou espalhado pelo corpo inteiro, jamais chegara perto do que aquela moça estava sentindo. A única sensação que posso descrever com precisão, é a dor no seu pé de apoio, aquela pequena lesão havia se tornado uma coisa preta, que com os treinos contínuos parecia ter calejado, mas doía mais do que qualquer outra coisa, mesmo assim quando a bailarina estava dançando nem  lembrava ou sentia.

A apresentação aconteceu, com muita sorte Isabel pode comparecer, estava fraca, mas não perderia por nada aquela apresentação, ela sabia bem o quanto significava para a filha tudo aquilo. Júlio estava emocionado, assim que a menina pisou no palco ele começou a chorar. E foi mesmo emocionante, Laís parecia estar possuída por um espirito flutuante, a sua alma parecia saltar em seu corpo, e em seus rodopios, foi delirante de assistir e viver aquilo, todos os presentes sentiram a mesma energia, era algo surreal.

Assim que acabou, vieram os aplausos, e como Laís se orgulhou, aquilo era muito mais do que ela imaginava, sentiu o seu corpo arrepiar em cada centímetro, a sua alma sorriu de alegria, e como era bom sentir aquela sensação sublime de felicidade. Era melhor do que ela pensou que seria algum dia.
Passado o fervor do palco, ainda no camarim Laís sentiu algo estranho no pé, ela sempre sentia dor após o treino ou a apresentação, mas naquele dia não sentiu, era como se não sentisse nada, sem a dor habitual, e nem a dor de morte que costumava sentir depois que fraturou o pé. Laís se \ levantou e não conseguiu ficar de pé, caiu ao chão e pra piorar machucou o rosto. Foi um desespero, logo a bailarina estava no hospital, e todos preocupados com o seu estado.

Naquela noite, foi a primeira vez que eu vi alguém vivo receber a noticia de que estava morto. Não consegui até hoje descrever algo de tamanha natureza, eu não sabia que poderia existir algo tão gigantesco em suas proporções de dor e felicidade ao mesmo tempo, quase que juntos, mas aconteceu. O medico, portador da tal façanha chegou com o olhar tranquilo, imagino que nem de longe conhecia a historia de Laís, com certeza ele não conhecia. Assim, com tranquilidade inadmissível para o assunto, ele disse  que após a fratura não cuidada de Laís, a bailaria teria parte de seu pé amputado.

Laís morreu tão jovem e tão bela.

Não! A garota não teve a morte a que estamos acostumados comentar, nada de enterro e flores, o caso foi ainda muito mais sério. Laís perdeu a parte mais bela da sua vida ainda naquela madrugada.
Então me diga como é possível alguém viver sem sonhar? Sem acreditar em algo além do óbvio, sinceramente eu não consigo pensar em morte pior que esta. Como alguém viveria sem a única parte que torna a vida possível? Laís morreu para os sonhos, para o sorriso, para o amor a vida, aquilo que pode existir de singular em alguém, nela não existia mais.

Talvez você viva o sonho, ou ele mate você, talvez o tempo nos ensine a entender aquilo que devemos viver, ou fazemos como Laís, vivemos até onde é possível vivê-lo. E é só.